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Ewandro Magalhães
Brazilian-born conference interpreter, author, translator, speaker, trainer. Married, 3 children.
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A menina do coração de cristal



A menina do coração de cristal caminha pelo litoral do Pacífico com os pés no chão e o espírito no infinito. 

Sobe montanhas, cruza oceanos, se molha na chuva e se bronzeia ao sol para estar comigo. Veio para iluminar-me com os raios violetas que emanam de sua aura e que eu sinto, sem nunca ter conseguido enxergar. 

O mundo dela é muito mais que o meu. A vida, para ela, vai além do que se vê. Tem cores que eu só percebo através de seus olhos. Tem um perfume que só me chega pelas mãos dela. Varamos as madrugadas com ela a me falar do fogo, do ar, da terra, de nosso espírito imortal e daquilo que há de ser de nós, segundo nossa crença e o bem que houvermos feito. Falo com ela dos meus medos, e ela acha graça de sermos assim tão diferentes, e ao fim de conversas como essa eu também acho graça, porque é tudo tão ridículo. 

Ela acha que os ETs existem e que são melhores que nós. Velam por nós e conspiram pelo bem do planeta. Virão nos buscar, quando o homem estragar tudo de novo. Eu não sei. Não sei de nada. Mas gosto de ouvir as histórias, e pensar como ela por vezes faz muito bem ao meu coração. 

Ela é a menina que eu amo e por muito que eu lhe dê amor, em seu coração de cristal sempre cabe mais.

Eu dou muito trabalho à ela. Prometo e não cumpro. Digo "já vou" e esqueço. Penso demais em mim mesmo. Às vezes brigamos muito, porque a menina do coração de cristal também é guerreira. Mas combate com a lança da verdade e empunha nas batalhas um escudo enorme com um brasão dourado onde se lê "Perdão". 

Como qualquer pessoa, tem planos e sonhos para si, e passa o dia a criar obras, jóias e meios de trazer paz à mim e outros três presentes que me deu e que dividem conosco esta existência. Mas também tem planos para mim. Muitos. Tem uma fé abusrda em mim. Diz-me sempre que sou escritor e pede que eu escreva mais. Lê o que escrevo e pensa histórias incríveis junto comigo. Eu teimo, tento e não escrevo ou escrevo pouco.  Ela insiste, amorosamente. 

Prometi a ela um livro que fale só de amor. Está aqui dentro, vivinho, mas teima em não viajar ao papel. Por enquanto é mais uma promessa adiada. Na falta de um livro, prometi a ela pelo menos um novo post. Esta promessa eu cumpri. Não fala só de amor, mas principalmente. Fala também da ternura, da paz e da alegria que vem de saber que a menina do coração de cristal anda sempre pertinho de mim. 

Love.

Sabe Quem Dançou?

Eu devia ter 13 ou 14 anos, quando caiu na minha mão numa aula de literatura um livro de contos que começava assim:

"Foi numa manhã de vento sul que a Malu pintou nas pedras pela primeira vez. Malu era o maior barato. Num é por falar não, mas no nosso grupo só dava ratazana e sapatão, só barangada da pior, e quando a Malu pintou, até o Babu ficou de olho".

Eu fiquei de cara. Imagina só. Volta aí no tempo uns 35 anos, aos idos de 1976, em plena ditadura militar no Brasil, e me diz se não é pra tomar com surpresa um livro assim, impresso e editado no Brasil (pelo Pasquim, é óbvio), e, ainda por cima, sugerido para consumo na rede pública de ensino. Só no primeiro parágrafo você se dá com "ratazana", "sapatão", "barangada" e gíria da primeira à última linha. E ou não é surpreendente?

Eu não sei o que os milicos acharam, mas eu achei libertador e nem quis saber mais o que deu no professor pra escolher uma obra assim. Meti o livro na mochila e, chegando em casa, comecei a ler devagarzinho as histórias, uma a uma, com um gosto que nem te conto. Então era possível escrever assim? Então não era só Machado de Assis e Olavo Bilac que tinham entrada num colégio católico como o meu? Será que os padres tinham visto aquilo? Secretamente, passei a temer pela saúde do professor Marcos Sílvio -- foi ele o maluco -- mas segui firme na leitura, que por muito picante eu tratava de esconder dos meus pais. O livro falava em drogas, no professor do supletivo que quer comer a empregada, do transexual que foge de Minas pra São Paulo para se assumir. Falava de suicídio, de prostitutas e de tudo que não falavam os livros de Machado ou Bilac. Falava de tudo de que não falavam os padres. Falava de tudo que não se fala em casa. Mas falava de um monte de coisas de que eu e meus amigos já tínhamos ouvido falar, coisas que a gente até escrevia por dentro das portas dos banheiros e no Criatividade, um livro grande usado nas aulas de Linguagem, onde uma vez a cada cem páginas nos davam instruções para escrever ou rabiscar sem censura tudo que nos vinha à mente. Só saía palavrão e um monte de desenhos obscenos e fantasias imaginárias, geralmente com alguém comendo a professora ou chutando a bunda de um dos padrecos. Tudo isso coberto depois, é claro, por uma grossa camada de nanquin ou pincel atômico preto ou vermelho, num emaranhado de linhas à Pollock, uma verdadeira pérola da pintura abstrata.

Um dia, vacilei e deixei o livro de bobeira em cima do sofá. Veio o velho, sentou-se, viu a capa, com o desenho de um surfista parafinado sobraçando uma pranchão enorme. Tomou o livro nas mãos, tirou, com um gesto todo seu, os óculos que só usava para enxergar de longe, e começou a ler ler, escorregando a mão pela página, devagarzinho, como a alisar cada folha antes de virá-la. Eu mal chegara no quarto me lembrei do vacilo e voltei de correria, para evitar o pior e flagrei a cena. Antes que eu pudesse voltar pelo corredor, o velho me fitou com um sorriso maroto, já tendo lido uma ou duas páginas de um pequeno conto curto, me perguntou de cara

-- Quem te deu esse livro?
Eu respondi.
-- Quem é esse autor?
-- Não sei. Nunca tinha ouvido falar -- disse entre dentes.
-- Pode me emprestar até amanhã? -- perguntou.
-- Tem certeza? -- perguntei eu de volta.
-- Rapaz, esse estilo é genial! -- arrematou o velho, já tomando a resposta como "sim", deixando a sala com o livro emaixo do braço.

Bom, anota aí mais um quadradinho na coluna das surpresas -- e uns tapas a menos na minha orelha. Eu já estava pronto para o sermão -- que aquilo era livro de maconheiro, literatura de desocupado e vagabundo. Mas o velho era escritor, e também estava em busca de um estilo. Ficou fã do livro, que leu e comentou comigo. Gostou particularmente de um conto chamado Referência, o tal da empregada que volta à escola. Conversamos bastante, e as conversas, assim como a leitura, mudaram minha forma de encarar a literatura. Sem saber, Júlio César Monteiro Martins -- é esse o nome do escritor até então desconhecido -- ajudou a criar em mim o desejo de escrever, como fazia meu pai, e mais ainda depois que o velho aprovou também aquela leitura de maconheiro (que eu não era e nunca fui, antes que me perguntem os padres ou os milicos!). Vai ver era isso que o professor Marcos Silvio queria e, por extensão, os padres.

Passaram os anos, e o livro sumiu da minha estante e das livrarias. Na minha memória, ficou a inspiração, mas as linhas, os diálogos, o estilo foram aos poucos se perdendo. Anos mais tarde, já tendo eu ensaiado também alguns escritos, estando já eu longe do Brasil, quis saber do Júlio, autor de vários outros livros publicados no Brasil. Tinha sumido também. Do mercado e do Brasil! A coluna das surpresas vai só aumentando.

Fui buscar e encontrei na rede uma entrevista antiga com o autor. Saiu do Brasil há 17 anos, num exílio auto-imposto, desgostoso com a vida, o mercado editorial e a política no Brasil. Andou por Portugal, pelos Estados Unidos e se instalou por fim na Itália, onde aos poucos voltou a escrever e a publicar. É responsável por uma revista eletrônica sobre literatura, a Sagarana.net. Topei com o email dele e resolvi escrever ao Júlio.

Contei a ele a história. Descobri que ele está radicado em Lucca, a famosa cidade medieval na Toscana, e para minha surpresa (outra!) está bem na rota entre Genebra, onde moro, e Florença, onde foi estudar minha filha mais velha. Alguns outros emails trocados, e alguns telefonemas, pus-me a caminho da Itália, com a família, para cuidar da instalação da filhota, e parei no meio do caminho, para conhecer o autor dos contos apimentados da minha juventude. Recebeu-nos em casa, na melhor hospitalidade brasileira, para um simpático jantar e um papo ainda melhor que o livro. O surfista maconheiro que eu esperava virou um bonachão e respeitado professor italiano. Escreve muito, coisas diferentes, numa língua diferente, que aprendeu na marra e depois de velho. Que ele consiga criar com igual maestria numa língua adquirida já em idade adulta é, talvez, a maior das surpresas. Júlio, que hoje leciona na Universidade de Pisa, é celebrado entre os grandes escritores italianos. Aliás, acaba de ser publicado um livro sobre a sua obra na Itália, sob o título de Un mare così ampio, de autoria de Rosanna Morace.  Ousei dar a ele cópias dos meus livros, um dos quais provavelmente foi parar na biblioteca da Universidade -- o que já é lucro.

Agora, engrossando o rol de surpresas (sob pena de transformar isso em clichê), todo mundo com quem eu converso nunca ouviu falar do Júlio. Mesmo depois de nove obras publicadas com sucesso no Brasil, e a despeito da incrível originalidade de seu estilo, das muitas cópias vendidas, do evidente talento, Júlio não consta de uma antologia sequer dos maiores, digamos, 200 escritores brasileiros de todos os tempos. E a lista -- como imagino que você já imagine -- inclui gente que, cá pra nós... bom, deixa.

Ouvi um pouco da história das razões de tal ostracismo. É longa e melhor contada pelo próprio Júlio. Procurei o livro online. Não encontrei. Depois recebi do próprio Júlio, uma versão eletrônica, redigitada por ele mesmo. Escaneei, e botei na rede, o conto Sabe Quem Dançou?, que dá título ao livro. Quem quiser pode lê-lo aqui. O resto... sumiu, inexplicavelmente (embora eu tenha aqui os outros contos, redigitados pelo autor). Sumiu o Júlio também, para nós brasileiros, e aí eu pergunto: Sabe quem dançou?

Eu sei: Nós.
.

Kokemukset kirjaksi

Wondering why it took me so long to write a post? I was too busy learning FINNISH!

Don't believe me? Well, check out the impeccable translations I have just completed in English AND Portuguese, of an article written by Mrs. Teija Potenze for the Journal of the Finnish Translators' Association (voted one of the most prestigious T&I journals in Europe). Teija, who is herself a high-level diplomatic interpreter for the Finnish cabinet (we actually met in Brasilia, on occasion of the official visit of the Finnish president, some years back), was kind enough to feature a review of my book, along with an article of mine in English, in the December 2010 edition of the aforementioned publication.

I was obviously flattered, as I had reason to believe Teija had said good things about the book. But how could I tell? Her review, whose title appears in the heading of this post, was all in Finnish, and if you -- non-Finnish speakers like me -- have ever looked at a text in Finnish, you probably got the impression that the editor typing it had just spilled coffee on his keyboard, given the sheer amount of repeat letters in many words: värikkäästi, siitä, majesteettinne, työskennellessään. In other words, unless you have been born in Finland, trying to make out the meaning of a text in this complex language equals attempting to solve Fermat's last theorem with an abacus you don't know how to use.

But that didn't stop me! Determined to decipher Teija's message, I patiently typed the original Finnish text into Google Translate (yes, I cheated, I know!) -- with all the sticky keys -- and had it pre-translated into Portuguese then English. I later polished up the texts, using the contextual information I have (it's my book, after all) and made some minor adjustments here and there. Although I know my rendering doesn't come close to Teija's beautiful prose in her own beautiful language, I was nevertheless agape that I could make any sense of a text in a language which was and still is a complete mystery to me. The result is definitely telling.  Well, I will let the Finnish readers of my blog (anybody there?) be the judge of that. The original article can be found here. And my impeccable translations (blush, blush) can be praised beyond measure here.

I don't know about you, but if I were a Finnish translator (which I now am, by the way!), I'd be really scared.

All joking aside (I hope my Finnish friends won't take offense), I should like to thank Teija Potenze for her gracious offer to review Sua Majestade, o Interprete and feature one of my articles in the Journal of her reputable Association.

Much appreciated, Teija. Thank you.

Mercado de tradução é tema de livro

Faço questão de divulgar aqui o livro do Fábio Said, colega tradutor, brasileiro, radicado na Alemanha. Ainda não li o livro, mas conhecendo bem o blog do Fábio e a qualidade de seu trabalho, creio que posso recomendar sem medo. 

Repasso, a seguir, as informações básicas, conforme recebidas do autor. Para mais detalhes, sugiro uma visita ao blog/site do Fábio. Os links estão abaixo. Bom proveito.

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Foi lançado em abril o livro “Fidus interpres: a prática da tradução profissional”, do tradutor Fabio M. Said. Em 256 páginas, o livro oferece ricas informações sobre o mercado de tradução e sobre um lado dos tradutores raramente visto na mídia: o profissional que se ocupa não só de traduzir, como também de aspectos comerciais, como estratégias de marketing, política de preços e planejamento financeiro.

O livro deriva do blog de tradução fidusinterpres.com, criado e mantido por Fabio M. Said há mais de dois anos. O blog é um espaço interativo que recentemente alcançou a marca dos 500 mil visitantes. O nome “fidus interpres” é um termo latino que significa “fiel tradutor” e há séculos tem sido objeto de estudos.

O livro “Fidus interpres: a prática da tradução profissional” pode ser adquirido somente pela internet. Ele foi publicado em sistema de impressão “sob demanda”, ou seja, os exemplares só são impressos depois de comprados, não havendo estoques, nem distribuição em livrarias físicas. Atualmente, a obra está em duas livrarias on-line – no Brasil e nos Estados Unidos – acessível, dessa forma, em praticamente qualquer lugar do planeta.

Ficha Técnica:

Título: “Fidus interpres: a prática da tradução profissional”
Autor: Fabio M. Said
Editora: edição do autor
Edição: 1a (2010), brochura, 14,8x21cm, 256 páginas
ISBN: 978-85-910098-2-4

Curso de Atualização em Interpretação Consecutiva

A turma já está praticamente fechada, mas só agora me ocorreu que acabei não divulgando aqui o curso que darei em Brasília, no fim de agosto. Bom, antes tarde do que nunca. Aqui vão os dados:

Curso prático, intensivo de atualização em interpretação consecutiva para intérpretes de português, com ênfase na tomada de notas. O curso segue a metodologia empregada pelo renomado Monterey Institute, dos EUA, para desenvolvimento da técnica da consecutiva longa (interpretação fiel e ininterrupta de segmentos de discurso de até 8 minutos). Os participantes farão exercícios práticos desde o primeiro dia, além de uma revisão da literatura e dos principais aspectos teóricos associados à modalidade.

Pré-Requisitos e Combinação Lingüística:Os candidatos devem ter fluência nativa ou pleno domínio do idioma português (nível A ou B), além de domínio de inglês e/ou espanhol como língua(s) passiva(s) (nível B ou C).

Indicado para intérpretes de conferência e aqueles com atuação no campo diplomático ou nas áreas médica, judicial, comercial ou comunitária. O domínio das duas línguas passivas (inglês e espanhol), embora desejável, não é obrigatório. Cada aluno trabalhará em sua própria combinação lingüística.

Inscrições e informações com Gisele Gonçalves: cursostraducao@gmail.com ou 61 8167-6846. Para ver o panfleto completo, é só clicar aqui ou no título deste post. 




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